O que você sentiria se soubesse que caminha ao lado de uma sobrevivente de Auschwitz, o campo de concentração mais mortal do regime nazista? O sentimento de quem participou da primeira Caminhada Paulo Afonso Por Elas, na tarde da última sexta-feira (20 de março), não foi muito diferente. Ali, entre autoridades e diversos setores da sociedade civil, marchavam mulheres que sobreviveram a uma guerra particular e invisível.
Eram mulheres atendidas pela rede de proteção, amparadas por medidas protetivas, carregando marcas no corpo e na alma. Elas uniram-se para formar um grande coro contra uma realidade que se torna, a cada dia, mais brutal e indiferente a critérios de renda, cor ou classe social: o feminicídio.
Não se trata de exagero retórico. Os números desenham um cenário de urgência: quase seis mulheres foram mortas por dia no último período, com 75% dos crimes ocorrendo no âmbito íntimo. Dados indicam que 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica em 2025. Para encarar uma realidade tão crua, apenas um movimento à altura desse desafio seria capaz de gerar impacto.
O pátio da Feira de Paulo Afonso transformou-se no palco dessa mobilização. Promovida pela Secretaria Municipal de Política para as Mulheres e Cidadania (SMPMC), a caminhada levou para as ruas um debate doloroso, mas necessário, sobre o feminicídio e as agressões de gênero cotidianas.
Ao deixar o pátio da feira, o grupo percorreu as principais ruas do centro comercial. No trajeto, a história ganhava rosto: 25 placas exibiam imagens de mulheres que se tornaram símbolos de resistência, como Maria da Penha, Tatiana Sampaio (pesquisadora da polilaminina) e Erika Hilton. O silêncio das fotos contrastava com o barulho dos passos de quem ocupava o asfalto por justiça.
O evento foi o ápice de um mês inteiro de mobilizações, que incluíram palestras, encontros e debates. Para Laine Pinheiro, secretária interina da SMPMC, o objetivo foi plenamente atingido. “Ficamos muito contentes com a participação. Esse momento é um passo fundamental na luta contra a violência empregada contra nós, mulheres. Esperamos que a cidade se sinta, de fato, impactada”, declarou.
O prefeito de Paulo Afonso, Mário Galinho, também integrou a caminhada ao lado da esposa, Jéssica Sá (secretária licenciada da SMPMC), e da filha mais velha. “Não podemos nos calar diante desse absurdo. O poder público abraça essa causa com o apoio das lideranças e de toda a sociedade”, destacou o gestor.
O ato culminou na Praça da Tribuna Livre, no coração da cidade. Ali, o tom solene dos discursos dividiu espaço com a vida que resiste: estandes de mulheres empreendedoras, serviços de saúde e apresentações culturais encerraram a atividade, transformando a dor da pauta em um manifesto de autonomia e cultura.
Precisa de ajuda? Denuncie casos de violência através do 180 ou 190.










