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MP investiga grupo por tentar desviar fortuna de fundador da UNIP

A Justiça de São Paulo decretou a prisão temporária de nove investigados suspeitos de integrar um esquema criminoso que teria tentado desviar quase R$ 845 milhões da herança do empresário João Carlos Di Genio, fundador do grupo educacional UNIP e Objetivo. Ele morreu em fevereiro de 2022, aos 82 anos.

O Ministério Público de São Paulo, por meio do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), pediu à Justiça a prisão preventiva de:  Anani Candido de Lara, Luiz Teixeira da Silva Junior, Patricia Alejandra Ormart, Jorge Alberto Rodrigues de Oliveira, Camila Mariana Alejandra Piaggio, Carlos Xavier Lopes, Rubens Maurício Bolorino, Aline Cordeiro de Oliveira e Wagner Rossi Silva. Além de 15 mandados de busca e apreensão.

Os investigados apontados como integrantes do esquema são empresários, sócios de empresas e pessoas que teriam atuado para formalizar documentos falsos.

Segundo o Gaeco, o grupo teria atuado de forma organizada, com divisão de tarefas, para tornar viável a fraude.

Funções que cada um tinha

Anani – Seria a figura central da fraude, responsável por elaborar toda a documentação.

Luiz Teixeira – Teria a maior parte do capital da empresa, teria assumido obrigações financeiras e societárias para dar aparência de legalidade à negociação simulada e ingressou com ação judicial para cobrar os valores. Além disso, Luiz Teixeira é citado pelo MP como responsável por fraudar laudo médico sobre a internação pelo uso de cocaína contra o então candidato à Prefeitura de São Paulo Guilherme Boulos (Psol), em 2024.

Rubens Maurício Bolorino – Aparece como testemunha em contratos e no procedimento arbitral

Wagner Rossi Silva – Teria atuado na logística e no manuseio dos documentos, realizando diligências em cartórios e órgãos administrativos.

Patricia Alejandra Ormart –  É apontada como responsável por simular notificações e expedir documentos sem conhecimento do espólio.

Jorge Alberto Rodrigues de Oliveira – Teria feito a intermediação entre o grupo e representantes do espólio para sustentar a narrativa de negociação legítima.

Camila Mariana Alejandra Piaggio – Teria participado da estruturação formal dos contratos e documentos usados na arbitragem.

Carlos Xavier Lopes – É apontado como integrante do núcleo financeiro, responsável por operações relacionadas aos valores cobrados judicialmente.

Aline Cordeiro de Oliveira – Teria atuado como “juíza arbitral” em uma sentença considerada simulada, sem garantir o contraditório ao espólio, o que, segundo os investigadores, ajudou a dar aparência legal à cobrança.

Mandados de busca e apreensão

Além das prisões, o Ministério Público solicitou o cumprimento de mandados de busca e apreensão em 12 lugares, incluindo:

  • 10 pessoas físicas investigadas
  • Duas empresas ligadas ao suposto esquema

Nesta terça-feira (31), a Polícia Civil realizou uma operação para cumprir os mandados de busca e apreensão. As buscas tiveram como objetivo recolher documentos, dispositivos eletrônicos e outros elementos que possam comprovar a prática dos crimes. Além dos bloqueios de bens e ativos financeiros. 

As investigações apontaram a atuação estruturada de pessoas com longo histórico criminal, que se aproveitaram de falsidade documental, fraude processual, corrupção, além da simulação de procedimentos arbitrários.

O grupo teria tentado ficar com os bens deixados por João Carlos criando contratos falsos, que depois seriam usados para entrar com ações na Justiça, tudo para enganar tanto a vítima quanto o próprio Judiciário.

Como o grupo agia

De acordo com o Ministério Público, o esquema operava de forma estratégica e em várias etapas, combinando falsificação documental, simulação de atos jurídicos e uso estratégico do Judiciário para tentar legitimar a cobrança milionária.

O ponto de partida era a criação de uma história fictícia envolvendo a vítima, a herança de um empresário, e uma suposta negociação imobiliária.

Os investigados alegavam que, ainda em vida, a vítima teria firmado um contrato de compra e venda de centenas de imóveis. Esse contrato, no entanto, nunca existiu e teria sido integralmente fabricado.

Para sustentar a versão criada, o grupo produziu um conjunto de documentos falsos:

  • contrato de compra e venda de imóveis
  • aditivos contratuais
  • termo de entrega de posse
  • nota promissória milionária

Segundo a investigação, foram falsificadas assinaturas da própria vítima, de um suposto procurador, de testemunhas e até falsificação de laudo médico. 

Com base nesses documentos, os investigados criaram uma dívida artificial.

O contrato indicava que a vítima deveria pagar inicialmente R$ 635 milhões, valor que depois foi atualizado para mais de R$ 845 milhões.

A cobrança era apresentada como legítima, com previsão de pagamento por meio de nota promissória.

Na sequência, o grupo enviava uma notificação extrajudicial ao herdeiro, exigindo o pagamento do valor milionário.

Esse passo tinha dois objetivos principais:

  • dar aparência formal à cobrança
  • pressionar a vítima antes de ir para o Poder Judiciário

Ao receber a cobrança, o herdeiro buscou verificar a autenticidade dos documentos.

O suposto procurador citado no contrato negou qualquer participação e afirmou que sua assinatura havia sido falsificada. 

Mesmo diante das inconsistências, o grupo teria avançado para a fase mais sofisticada do esquema: o uso do sistema judicial.

Segundo o MP, foram realizadas:

  • tentativas de habilitação de crédito no inventário
  • ações judiciais de cobrança
  • medidas processuais baseadas nos documentos falsos

A intenção era induzir o Judiciário ao erro e obter uma decisão que legitimasse a cobrança milionária.

Para fortalecer a aparência de legalidade, os investigados também teriam simulado um procedimento arbitral, no qual as partes escolhem árbitros (especialistas) para decidir disputas sobre direitos patrimoniais disponíveis.

Esse mecanismo foi utilizado como se houvesse uma decisão válida reconhecendo a dívida, o que aumentaria a credibilidade da cobrança perante a Justiça.

Divisão de tarefas dentro do grupo

A investigação aponta que os envolvidos atuavam com funções bem definidas:

  • alguns eram responsáveis pela criação dos documentos falsos
  • outros figuravam como sócios das empresas utilizadas
  • havia quem atuasse como testemunha dos contratos forjados
  • e integrantes que participavam da validação formal dos atos, como na arbitragem simulada

As empresas envolvidas teriam sido utilizadas como instrumentos para:

  • dar aparência de legitimidade às operações
  • viabilizar a circulação de valores
  • ocultar a origem ilícita dos recursos

O MP ainda apura se houve lavagem de dinheiro ligada ao esquema.

No documento, o Supremo Tribunal Federal ainda indicou que um dos integrantes desse esquema, Luiz Teixeira da Silva Junior, tem envolvimento com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).

As investigações continuam para identificar outros envolvidos.

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