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Canetas emagrecedoras viram o novo alvo dos assaltos a farmácias no Brasil

As farmácias sempre estiveram na mira de assaltantes, sobretudo as que funcionam 24 horas. Nos últimos meses, porém, o perfil dos crimes mudou. Os criminosos já não entram apenas atrás do dinheiro do caixa ou de produtos variados. Em diferentes ocorrências, o alvo passou a ser as geladeiras onde ficam armazenadas as chamadas canetas emagrecedoras — medicamentos pequenos, fáceis de transportar e com alto valor de revenda.

Indicados para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, medicamentos como o Mounjaro (tirzepatida) e os à base de semaglutida, como Ozempic e Wegovy, se transformaram em produtos de alta procura. Uma única caneta de Mounjaro, na dosagem mais baixa, custa a partir de R$ 1,4 mil nas farmácias. No mercado paralelo, o mesmo produto já chegou a ser oferecido por valores superiores a R$ 4 mil.

Crescimento nos registros

Os dados oficiais ainda são fragmentados, mas apontam para o crescimento das ocorrências. Levantamento do portal JOTA, com base em comunicações feitas à Anvisa, identificou 24 casos de roubo, furto ou extravio de medicamentos análogos ao GLP-1 entre janeiro de 2024 e o início de julho de 2026. Desse total, 18 ocorreram nos 12 meses mais recentes, indicando uma concentração maior dos registros no período.

O impacto também aparece nos balanços das empresas. Segundo o Correio Braziliense, a RD Saúde, responsável pelas redes Raia e Drogasil, precisou reservar mais de R$ 13 milhões em 2025 para cobrir perdas provocadas por furtos e roubos nas lojas. Diante do avanço das ocorrências, a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) criou um comitê com representantes das 29 maiores redes do país para acompanhar a situação.

Casos pelo país

Os casos registrados envolvem diferentes regiões. No Distrito Federal, uma drogaria localizada no bairro Noroeste foi invadida durante a madrugada, e os criminosos levaram cerca de R$ 60 mil em canetas. Em Cuiabá, a Polícia Militar prendeu neste mês uma quadrilha que estava com 30 caixas de Mounjaro roubadas de uma drogaria no dia anterior.

Em outras ocorrências, os assaltos terminaram com mortes. Em junho, três suspeitos morreram durante um confronto com a polícia após o roubo a uma farmácia em Sorocaba, no interior de São Paulo. No fim do ano passado, um taxista morreu durante um assalto a uma farmácia no Morumbi, na capital paulista. Em julho, no Recife, um homem foi preso depois de ser atingido pela polícia durante uma ação semelhante.

Queda no total, mudança no alvo

Os números de São Paulo indicam que o fenômeno representa, até o momento, uma mudança no perfil dos alvos, e não necessariamente uma explosão generalizada dos roubos a farmácias. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, o estado registrou 439 roubos a farmácias no primeiro semestre de 2026, uma queda de 16% em relação ao mesmo período de 2025. A pasta afirma que a Polícia Militar reforçou o policiamento nas regiões com maior incidência.

Para os funcionários, porém, a rotina continua marcada pelo medo. Em reportagem publicada pelo Correio Braziliense, um atendente de uma farmácia 24 horas em São Paulo relatou ter passado por 12 assaltos em um ano e meio, situação que desencadeou crises de ansiedade e sintomas de estresse pós-traumático. O Conselho Regional de Farmácia de São Paulo reconhece que estabelecimentos que funcionam durante a madrugada estão entre os mais vulneráveis.

Risco para quem compra

As canetas roubadas podem chegar ao mercado informal por meio de redes sociais, aplicativos de mensagem e vendedores sem registro. Além do problema criminal, a comercialização clandestina representa um risco para quem compra. Os medicamentos precisam ser mantidos sob refrigeração e podem perder a eficácia quando submetidos a temperaturas inadequadas. No caso de um produto roubado, o consumidor não tem como saber em quais condições ele foi armazenado.

Também existe o risco de falsificação. Somente em julho deste ano, a Anvisa determinou, em duas ocasiões, a apreensão de lotes falsificados de Mounjaro identificados pela própria fabricante, a Eli Lilly. Em um dos casos, os falsificadores utilizaram um número de lote verdadeiro associado a um número de série incompatível, dificultando a identificação da falsificação pelo consumidor.

Desde junho de 2025, a venda desses medicamentos exige a retenção da receita médica. A orientação da Anvisa é que os produtos sejam adquiridos apenas em farmácias regularizadas, sempre na embalagem original e acompanhados de nota fiscal. O consumidor também deve conferir o lote e o número de série. Em caso de suspeita, o medicamento não deve ser utilizado, e a fabricante e a Anvisa devem ser comunicadas.

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