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Lewis Hine, o fotógrafo que denunciou o trabalho infantil nos EUA

Sadie Pfeifer — fiandeira em uma fábrica de algodão, Lancaster, Carolina do Sul (1908)Fotógrafo – Lewis Hine- Fonte – biblioteca do congresso Nacional dos EUA

No começo do século XX, a infância era muito diferente de hoje em dia. Essa etapa não era vista como um período de brincadeiras, aprendizado e proteção garantida por leis, mas sim como sinônimo de trabalho. Em diversas regiões industrializadas do mundo, especialmente em países como Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos, meninos e meninas começavam cedo nas fábricas, fazendas e oficinas.

Para se ter uma ideia, no Censo dos Estados Unidos de 1900, uma em cada seis crianças entre cinco e dez anos participavam da força de trabalho. De fato, o trabalho infantil representava cerca de 20% de toda a força de trabalho somente naquele país. A maioria dessas crianças não frequentava a escola e era analfabeta.

A necessidade de colocar comida na mesa não podia esperar a chegada da vida adulta.

Além da necessidade, o trabalho infantil também era lucrativo para os patrões, pelo simples fato de que a mão de obra infantil era mais barata. As crianças obedeciam melhor às ordens e ainda conseguiam trabalhar em espaços como minas ou dutos onde adultos não cabiam. Suas mãos pequenas permitiam operar mecanismos com mais facilidade. Ou seja, para muitas ocupações, eram vistas como mão de obra ideal.

Apesar dos salários mais baixos, na prática, não havia grande distinção entre o trabalho adulto e o infantil. Ambos compartilhavam os mesmos ambientes insalubres, estavam sujeitos aos mesmos perigos constantes e trabalhavam jornadas igualmente longas e desumanas.

Hoje já se sabe que o trabalho infantil deixa marcas que vão além dos riscos da própria atividade. Crianças que enfrentam essa realidade desde cedo podem desenvolver problemas físicos e psicológicos. Afinal, o período da infância, que deveria ser de descoberta e aprendizado, transforma-se em um momento de responsabilidade e sobrevivência, além de provocar atrasos na educação, já que essas crianças raramente conseguem conciliar plenamente estudo e trabalho.

Isso gera um ciclo difícil de romper: sem estudo, restam trabalhos pesados e com baixa remuneração na vida adulta, reproduzindo as desigualdades. Além disso, há um custo para a sociedade como um todo. Uma sociedade em que o trabalho infantil persiste é uma sociedade em que o desenvolvimento das forças produtivas é freado pela falta de avanço tecnológico, consequência da baixa qualificação da mão de obra.

Estes impactos negativos já eram claros no inicio do século XX.  Foi Durante este período que em diversos países surgiram importantes movimentos de reforma trabalhista, além da criação de sindicatos e outras organizações ligadas ao mundo do trabalho, que tinham como uma de suas principais pautas a eliminação do trabalho infantil.

Especialmente nos Estados Unidos, esse início do século XX ficou conhecido como “Era Progressista”, marcado por diversos esforços de regulamentação da mão de obra e de enfrentamento das desigualdades geradas pela industrialização acelerada do país. Cresceu a pressão por leis trabalhistas, regulamentação da jornada e, sobretudo, restrições ao trabalho infantil. Intelectuais, reformadores sociais e setores acadêmicos progressistas passaram a compreender algo essencial que hoje é evidente: uma sociedade que explora suas crianças e compromete o próprio futuro.

É nesse contexto que surgiram entidades civis e privadas voltadas combater este problema, uma delas foi o National Child Labor Committee (Comite Nacional de Trabalho Infantil) nos Estados Unidos, fundado em 1904 com o objetivo de investigar, documentar e combater a exploração do trabalho infantil no país.

O comitê reunia reformadores sociais, educadores e ativistas que compreendiam a necessidade de produzir evidências concretas para sensibilizar a opinião pública e pressionar o poder legislativo, mostrando que essas práticas eram inaceitáveis e desumanas.

Em 1908, eles decidiram que uma das estratégias de denúncia seria fotografar e colher relatos e provas dessas crianças durante sua joranda de trabalho, trazendo o tema à luz do debate público. O fotógrafo escolhido para essa empreitada foi Lewis Wickes Hine, um homem de 34 anos que estudou sociologia e educação e tinha grande sensibilidade para o tema.

Em seus estudos, Hine foi influenciado por correntes intelectuais que defendiam o uso do conhecimento como instrumento de mudança e compreendia que a infância deveria ser protegida, pois é nesse período que cidadãos podem ter a formação necessária para transformar a realidade em que vivem. Antes mesmo de se dedicar ao combate ao trabalho infantil, ele já utilizava a fotografia como ferramenta pedagógica, levando alunos a documentar a vida urbana e os fluxos migratórios, especialmente em locais como Ellis Island, onde desembarcavam milhares de imigrantes em busca de uma nova vida na América.

Após ser contratado, Hine percebeu que não deveria apenas ilustrar relatórios, mas sim observar e interpretar, por meio de sua formação acadêmica, as consequências dessa realidade na sociedade americana. O resultado disso não foram apenas fotos, mas evidências que ficaram para a posteridade sobre a realidade crua do trabalho infantil nos Estados Unidos, numa obra que transitava entre a documentação científica e a denúncia pública.

Mas seu trabalho não seria fácil. No contexto em que havia alguma fiscalização estatal ou de órgãos governamentais e sindicais, fábricas, oficinas e plantações já sabiam como enganar e preparar o ambiente para visitas externas. Os locais eram limpos, crianças eram retiradas das áreas mais perigosas e as condições precárias eram escondidas, criando uma imagem aceitável nos relatórios oficiais.

É justamente nessa realidade que o trabalho de Hine ganha força. Ele não apenas entrava nesses ambientes de forma aberta, mas muitas vezes se disfarçava: ora como vendedor de bíblias, ora como comprador, como inspetor de fábrica ou até como fotógrafo comercial. Ou seja, ele criava uma identidade que lhe permitia acessar locais onde órgãos oficiais não chegavam, revelando uma realidade até então escondida.

Uma vez dentro, precisava agir com rapidez e discrição. Não bastava entrar, era necessário sensibilidade e estratégia para registrar as imagens corretas e obter relatos das crianças e as melhores fotografias. Nem sempre dava certo: ele chegou a ser descoberto, ameaçado, expulso e a correr riscos reais. Afinal, seu trabalho colocava em risco práticas extremamente lucrativas e protegidas por interesses poderosos.

Apesar do perigo, ele não desistiu. Por mais de uma década, entre 1908 e 1918, percorreu os Estados Unidos registrando o trabalho infantil em diversos locais.

Seu método combinava fotografia e coleta sistemática de dados: nomes, idades, jornadas de trabalho e condições de vida eram cuidadosamente anotados, conferindo às imagens um caráter documental difícil de contestar.

Essa produção não era isolada. As fotografias eram utilizadas pelo comitê em relatórios, periódicos, cartazes, exposições e campanhas públicas, ampliando sua circulação e impacto. Ao dar rosto e identidade às crianças trabalhadoras, Hine rompeu com a abstração estatística e transformou o problema em uma realidade concreta e inegável.

Aqui abaixo temos algums fotografias que Hines capturou e um pouco de suas histórias.

O menino da fabrica sardinhas

Sadie Pfeifer — fiandeira em uma fábrica de algodão, Lancaster, Carolina do Sul (1908)Fotógrafo – Lewis Hine- Fonte – biblioteca do congresso Nacional dos EUA

Hine encontrou Sadie Pfeifer, com cerca de 1,22 metro de altura, e a fotografou diretamente ao lado das máquinas perigosas com as quais ela lidava todos os dias. 

Nas fábricas de tecido, símbolos da revolução industrial, crianças também eram parte da mão de obra explorada, meninas de apenas 10 anos ou menos atuavam como “spinners”, trocando bobinas de linha e limpando máquinas enormes. As jornadas eram absurdas, ultrapassando 12 horas por dia, em ambientes barulhentos e perigosos, pequenas distrações e erros poderiam gerar ferimentos graves, em alguns casos elas podiam perder dedos ou até um braço.  

Os meninos jornaleiros

Menino jornaleiro dormindo na escadaria com jornais à noite em Jersey City, Nova Jersey, novembro de 1912.Fotógrafo – Lewis Hine- Fonte – biblioteca do congresso Nacional dos EUA

Lewis Hine capturou essa imagem em 1912, em Nova Jersey. Nela, vemos um menino jornaleiro dormindo em uma escada, usando jornais como travesseiro após horas de trabalho.

Os jornaleiros (newsboys) eram uma presença comum nas cidades norte-americanas até meados do século XX. Muitos eram crianças em situação de vulnerabilidade ou meninos de rua, que dependiam desse trabalho para sobreviver. Na virada do século, era comum que começassem suas atividades ainda de madrugada, por volta das 3 horas da manhã, recebendo muito pouco em troca de suas longas e exaustivas jornadas.

Os irmãos que trabalhavam no cultivo de tabaco

Amos, 6 anos, e Horace, 4 anos — trabalhadores no cultivo de tabaco em Albaton, Condado de Warren, Kentucky (19 de agosto de 1916)Fotógrafo – Lewis Hine- Fonte – biblioteca do congresso Nacional dos EUA

Esta uma das fotos mais chocantes de Lewis Hines, esses dois Irmãos do Kentucky, em 1916 trabalhavam em uma plantação de fumo. Eles eram Amos, de seis anos e Horace, de chocantes 3 anos de idade. Essa era uma atividade muito arriscada para crianças tão pequenas, já que o contato do orvalho e as folhas de fumo os expunha a intoxicação de nicotina, havia até um nome pra isso, doença da folha verde, eles sofriam com sintomas como náusea, tontura e fraqueza. 

Na descrição da imagem feita por Hines está escrito:

“Amos tem 6 anos e Horace, 4. O pai deles, John Neal, é arrendatário e trabalha no cultivo de tabaco. Segundo seu próprio relato — confirmado também pelo proprietário da terra — os dois meninos trabalham diariamente do nascer ao pôr do sol, realizando tarefas como retirar vermes das plantas e “desbrotar” o tabaco.

Apesar da pouca idade, eram descritos como trabalhadores constantes, “tão firmes quanto um adulto”, inseridos desde muito cedo no ritmo exaustivo do trabalho agrícola sazonal.”

O rapaz que perdeu um Braço 

Garoto com Braço direito amputado por uma serra em uma fábrica de caixas 1907 Lewis Hine- Fonte – biblioteca do congresso Nacional dos EUA

Esta é uma das fotografias que mais chama atenção em toda a coleção. Nela, vemos um jovem trabalhador sem o braço direito. Segundo registros do próprio fotógrafo, o ferimento teria ocorrido durante o uso de uma máquina em uma fabrica de caixas de papel. No início do século XX, acidentes de trabalho eram frequentes nas fábricas, especialmente em ambientes com pouca ou nenhuma regulamentação de segurança.

Crianças também estavam expostas a essas condições perigosas e sofriam lesões graves com certa regularidade. Esses acidentes frequentemente resultavam em limitações permanentes, afetando profundamente a vida deles. 

Eles faziam 1700 flores por dia.

“Fazendo flores em uma casa de cortiço 1908Fotógrafo – Lewis Hine- Fonte – biblioteca do congresso Nacional dos EUA

Em algumas casas de cortiços do Lower Manhattan, crianças faziam flores artificiais em fábricas improvisadas. Algumas famílias ganhavam até 20 dólares por semana, mas isso significava que as crianças trabalhavam até as 20h, produzindo até 1.700 flores por dia, e depois ainda iam à escola no dia seguinte.

O impacto dessas fotos que você acabou de ver foi enorme. 

Como previsto o resultado da divulgação dessas fotos foi espetácular, somente no ano de 1914, 35 estados passaram a proibir o emprego de crianças menores de 14 anos e a exigir jornada de 8 horas diárias para menores de 16 anos. Essas fotografias representam, portanto, um dos primeiros exemplos de como a fotografia ajudou a promover mudanças sociais, mudando a visão da sociedade sobre os reais impactos na vida dessas crianças.

Ou seja, a infância, como a entendemos hoje  protegida, escolarizada e cercada por direitos, não nasceu naturalmente. Foi conquistada. E, como toda conquista histórica, veio depois de muita denúncia, embate e luta.

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