Nacional

Contrabando de enguias movimenta bilhões e ameaça espécies

Unai Eizaguirre, pescador de enguias há 30 anos, prepara o equipamento com um colega no País BascoJan-Philipp Scholz, Nicole Ris

Em Plentzia, uma pequena cidade espanhola à beira-mar perto da movimentada Bilbao, a pesca de enguias faz parte da vida cotidiana há muito tempo. Agora, pescadores de todo o País Basco espanhol não podem mais capturar a espécie. É que a valiosa iguaria está no centro do que as autoridades descrevem como um dos esquemas de tráfico de animais mais lucrativos do mundo.

A proibição regional tem o objetivo de proteger a enguia-europeia, uma espécie criticamente ameaçada de extinção cuja população caiu cerca de 95% desde os anos 1980. Mas pescadores locais argumentam que as regras punem quem as cumpre, enquanto redes criminosas lucram com um comércio bilionário de enguias capturadas ilegalmente.

“Então serão os pescadores bascos que vão extinguir a enguia enquanto os demais podem continuar pescando?”, disse Unai Eizaguirre, que pesca enguias há 30 anos e agora encara a perspectiva de perda de renda. “É ridículo.”

Ambientalistas apoiam a proibição como uma resposta emergencial diante de múltiplas ameaças, como poluição e mudança climática. Mas a bióloga marinha Estibaliz Diaz afirma que também são necessárias medidas de longo prazo, como a remoção de barragens hidrelétricas que bloqueiam rotas migratórias e matam enguias em suas turbinas.

“A situação é tão grave que precisamos agir em todas as frentes”, disse Diaz, que trabalha no instituto de pesquisa marinha AZTI.

Negócio tão lucrativo quanto tráfico de drogas

Parte do que torna a enguia-europeia tão vulnerável é seu ciclo de vida extraordinário. Hoje, os pesquisadores sabem que as enguias adultas migram milhares de quilômetros dos rios europeus até o Mar dos Sargaços, no Atlântico Norte, o único local conhecido de reprodução da espécie. Elas se reproduzem e morrem, deixando suas larvas à deriva em direção à Europa. Quando chegam aos rios, transformam-se em pequenas e transparentes “enguias-de-vidro”.

Hoje, o número de enguias-de-vidro que chegam ao Golfo de Biscaia e aos cursos d’água conectados representa apenas cerca de 12% do registrado antes dos anos 1980, segundo Diaz.

As jovens enguias-de-vidro que os ambientalistas tentam proteger são justamente as mais valiosas no comércio ilegal, alcançando preços de até 9 mil dólares (cerca de R$ 46 mil) por quilo.

“É possível comparar com o tráfico de drogas. Todos os anos, toneladas de enguias capturadas ilegalmente são apreendidas na Europa”, disse Eizaguirre. “O grande negócio está em traficá-las para a Ásia”, acrescentou, afirmando que os lucros elevados e as multas relativamente pequenas aplicadas a infrações menores cometidas por pescadores locais fazem o risco compensar. Quando organizações criminosas estão envolvidas, porém, as punições podem ser severas, com multas de até seis vezes o valor da carga ilegal de enguias.

A demanda em países como China, Coreia do Sul e Japão impulsiona os preços. Também contribui uma peculiaridade biológica: até agora, tem sido extremamente difícil conseguir que enguias se reproduzam em cativeiro. Por isso, que fazendas aquícolas, onde as enguias são criadas antes de serem vendidas a restaurantes de alto padrão, precisam de um fluxo constante de exemplares jovens capturados na natureza. Em alguns casos, as mesmas enguias traficadas retornam à Europa na forma de filés destinados ao mercado de sushi.

Ambientalistas esperavam que a pressão sobre a espécie fosse diminuir quando a União Europeia proibiu, em 2010, a exportação da espécie para fora do bloco. Em vez disso, grupos do crime organizado passaram a atuar cada vez mais no mercado, e o comércio ilegal passou a gerar lucros estimados em 3 bilhões de dólares (aproximadamente R$ 15,4 bilhões) nos anos de pico.

“Nossa estimativa máxima sempre foi de 100 toneladas de enguias-de-vidro contrabandeadas por ano. Isso já representa cerca de 300 milhões de peixes”, disse Florian Stein, chefe de políticas públicas e ciência da Associação Alemã de Pesca Esportiva. Mas informações obtidas por seus contatos dentro do comércio ilegal o levaram a concluir que se tratava de uma “estimativa muito conservadora”.

Agências internacionais também vêm intensificando as ações de combate. A Operação Lake, da Europol, apreendeu 22 toneladas de enguias-de-vidro e levou à prisão de 26 suspeitos entre 2024 e 2025.

“Houve muita pressão das forças de segurança em toda a Europa”, disse Sanchez Romero, da Interpol. “Por isso os grupos criminosos estão sempre procurando novas rotas.”

Enguias transportadas em malas por rotas complexas

Stein, que escreveu sua tese de doutorado sobre o contrabando internacional de enguias e hoje assessora o governo alemão, afirmou que o tráfico aumentou desde 2020 e que as rotas ilegais se tornaram mais complexas.

“Há dez anos, o aeroporto de Madri ainda era um dos maiores pontos de contrabando”, afirmou. Isso se devia à proximidade com áreas de pesca no norte da Espanha e em Portugal.

O aumento das inspeções realizadas pelas autoridades espanholas em voos para o leste asiático obrigou os traficantes a se adaptar. Especialistas dizem que uma nova rota que atravessa o norte da África, passando por Marrocos, Mauritânia e Senegal, vem ganhando importância.

A geografia é um dos fatores que explicam a atratividade desse trajeto. O estreito de Gibraltar tem apenas 14 quilômetros em seu ponto mais estreito e é uma movimentada passagem marítima. “Sabemos que muitas drogas também são transportadas por esse estreito”, disse à DW o jornalista investigativo marroquino Yassir Al-Makhtoum.

A enguia-europeia também habita rios e estuários do Marrocos. Embora o país tenha proibido a exportação de enguias-de-vidro com menos de 12 centímetros, está desenvolvendo uma indústria legal de comércio doméstico da espécie. Especialistas temem que isso esteja servindo de fachada para animais traficados da Europa.

A partir do Marrocos, os contrabandistas enviam as enguias por diversas rotas até a Ásia. Os métodos nem sempre são sofisticados. As enguias-de-vidro podem ser transportadas em malas comuns em voos domésticos. Elas são colocadas em sacos com pouca água e material isolante para manter a temperatura estável. Nessas condições, conseguem sobreviver por até 48 horas. Uma vez na Ásia, as enguias seguem para as fazendas de criação.

Uma corrida contra o tempo

As enguias são um importante indicativo da saúde dos ecossistemas marinhos e fluviais, porque suas longas migrações por diferentes habitats as tornam vulneráveis a problemas que também podem afetar outras espécies. Elas também servem de alimento para garças, lontras e peixes maiores.

“Mas o impacto de seu desaparecimento é difícil de estimar”, disse a bióloga marinha Diaz.

Pelas regras da União Europeia, os Estados-membros devem adotar medidas para permitir que 40% das enguias adultas retornem ao Mar dos Sargaços para se reproduzir. Diaz também quer garantir que pelo menos 40% das enguias-de-vidro consigam completar o caminho de volta a partir do Mar dos Sargaços.

Mas a enguia-europeia não é a única espécie ameaçada. Uma proposta para proteger todas as espécies de enguias de água doce contra o comércio ilegal e insustentável foi rejeitada na conferência da Cites de 2025. Para Stein, essa proteção é fundamental.

“A proposta precisa voltar à mesa na próxima conferência. Sinceramente, não vejo outra forma de controlar esse problema”, disse Stein, acrescentando que é necessário ampliar o trabalho de articulação política e formação de coalizões em defesa de uma proibição.

“A enguia é mais do que apenas um peixe para nós”, disse Unai Eizaguirre. “Ela faz parte da nossa identidade há séculos.”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Leia também