A Suécia não fabrica um grama sequer de fertilizante sintético e importa tudo o que aplica na lavoura, com grande parte do adubo derivado de combustíveis fósseis e da mineração pesada. Diante dessa dependência, pesquisadores da Universidade de Ciências Agrícolas do país passaram a estudar um recurso abundante e gratuito: a urina da própria população. Os cálculos indicam que reaproveitar o xixi urbano substituiria até um terço de todo o fertilizante químico usado hoje na agricultura sueca.

A coleta do material se concentra onde há aglomeração. Mictórios ecológicos substituíram os banheiros químicos do Eleda Stadion, casa do Malmö FF, como parte do projeto nomeado Pee for the Planet. Os festivais de música passaram pelo mesmo processo, com o evento de Walpurgis recolhendo de 20 mil litros de xixi. Cada unidade atende quem urina em pé ou sentado, com tela protetora que barra o descarte de qualquer material sólido.

O problema é que vender o fertilizante líquido não é viável no aspecto logístico, já que a urina tem cerca de 95% de água, encarecendo o armazenamento e o transporte. A startup Sanitation360 resolveu o imbróglio secando e concentrando o material em recipientes fechados até virar pó. Após o processo químico, a urina é misturada a subprodutos do processamento de aveia, cedidos pela empresa sueca Oatly, e prensada em grânulos escuros.

O resultado foi batizado como Granurin e reproduz o formato dos adubos minerais que os agricultores já despejam nas semeadeiras, dispensando novos equipamentos. Estudos agronômicos publicados pela universidade classificam o Granurin como fertilizante de liberação lenta, rico em nitrogênio, fósforo e potássio.

O fertilizante feito de urina serve para plantações de trigo e aveia, hortaliças, canteiros urbanos e manutenção de gramados esportivos, inclusive dos campos de futebol. Parte da cevada adubada com o Granurin, inclusive, abastece cervejarias da ilha de Gotland. Outra justificativa a favor do reaproveitamento da urina é o fechamento de um ciclo de nutrientes antes desperdiçados, que acaba reduzindo perdas urbanas e aproveita os recursos locais.

Para além disso, adubos sintéticos escorrem para rios e mares e causam a chamada eutrofização, caracterizada por um excesso de nutrientes que sufoca a vida aquática e castiga o Mar Báltico. Como se não fosse o suficiente, a produção desses fertilizantes ainda emite gases que influenciam no efeito estufa.









