Ao longo do governo Lula, o Brasil enfrentou problemas em várias áreas. Os registros de pessoas em situação de rua cresceram, as contas públicas ficaram mais pressionadas, a dívida aumentou e muitas empresas passaram a enfrentar dificuldades para pagar suas dívidas.
Esses números ajudam a entender o cenário do país, mas precisam ser analisados com cuidado. Nem todo resultado pode ser atribuído a uma única decisão do governo. Inflação, juros, crescimento econômico, câmbio e mudanças na forma de contabilizar os dados também influenciam os indicadores.
Além disso, os dados mais recentes ainda não representam necessariamente o resultado fechado de todo o ano de 2026. Em muitos casos, eles mostram a situação acumulada até o último período disponível.
Mais pessoas registradas em situação de rua
Segundo dados compilados a partir do Cadastro Único, o número de pessoas registradas em situação de rua passou de 198,7 mil, em dezembro de 2022, para 392,4 mil, em junho de 2026. Isso representa um aumento de aproximadamente 97,4%.
O crescimento chama atenção porque revela uma ampliação da vulnerabilidade social no país. Por trás de cada número estão pessoas que enfrentam dificuldades para conseguir moradia, trabalho, alimentação, atendimento de saúde e acesso a serviços básicos.
É importante, porém, entender o que esse dado significa. O Cadastro Único registra as pessoas que foram cadastradas pelo poder público. Ele não é um levantamento completo de todos os brasileiros que vivem nas ruas. Por isso, o número real pode ser diferente. Mudanças na busca ativa, na atualização dos cadastros e no atendimento dos municípios também podem alterar a estatística.
Ainda assim, a alta dos registros é um sinal de alerta. Para entender suas causas, é necessário observar também o preço dos aluguéis, o custo dos alimentos, o mercado de trabalho, a renda das famílias e a rede de assistência social disponível em cada cidade.
As contas públicas ficaram mais pressionadas
Em 2022, último ano antes do início do atual mandato, o setor público consolidado registrou superávit primário de R$ 126 bilhões. Em termos simples, isso significa que o governo arrecadou mais do que gastou, sem contar os juros da dívida.
Essa informação não deve ser confundida com o resultado nominal. Quando os juros são incluídos, o setor público terminou 2022 com um déficit nominal de R$ 460,4 bilhões. São indicadores diferentes e, por isso, precisam ser apresentados separadamente.
Nos 12 meses encerrados em agosto de 2026, o Banco Central registrou déficit primário de R$ 82,1 bilhões, equivalente a 0,62% do PIB. Isso mostra uma mudança importante em relação ao superávit registrado em 2022.
A dívida também avançou. A Dívida Bruta do Governo Geral chegou a 82,9% do PIB em agosto de 2026, o equivalente a R$ 11,1 trilhões. Esse cálculo inclui o governo federal, o INSS e os governos estaduais e municipais.
O aumento da dívida tem consequências para o país. Quanto maior o endividamento, maior tende a ser o gasto com juros. Com isso, sobra menos espaço no orçamento para investimentos em áreas como saúde, educação, segurança e infraestrutura.
Mas é preciso evitar uma explicação simplista. A dívida não aumenta apenas por causa dos gastos do governo. Juros altos, variação do câmbio, crescimento do PIB e novas emissões de títulos também influenciam o resultado.
Aumento de impostos: por que as contagens são diferentes?
Desde 2023, o governo adotou diversas medidas para aumentar a arrecadação. Entre elas estão a retomada de tributos sobre combustíveis, mudanças na tributação de investimentos, alterações no Imposto sobre Operações Financeiras e a redução ou retirada de alguns benefícios fiscais.
Um levantamento do Ranking dos Políticos contabiliza 37 medidas de aumento de impostos. O próprio levantamento, no entanto, explica que outras análises chegam a números diferentes, entre 25 e 27 medidas. A diferença ocorre porque cada estudo usa um critério: alguns incluem apenas aumentos efetivos; outros também consideram a volta de tributos, mudanças em impostos de importação ou propostas que não chegaram a ser aprovadas.
Por isso, o número de “36 medidas” não deve ser tratado como uma estatística oficial única. O mais correto é informar que houve dezenas de mudanças tributárias, com a quantidade exata dependendo do método utilizado para fazer a contagem.
Há também um dado oficial importante. O Tesouro Nacional informou que a carga tributária bruta chegou a 32,32% do PIB em 2024, acima do percentual registrado em 2023.
Na prática, uma carga maior pode afetar consumidores e empresas de formas diferentes. Combustíveis, produtos importados, crédito, folha de pagamento e investimentos podem ficar mais caros ou menos atrativos. Por outro lado, o governo argumenta que parte das medidas corrige distorções e reduz brechas que permitiam o não pagamento de tributos.
Empresas enfrentam crédito caro e mais pedidos de recuperação judicial
A dificuldade financeira também aparece nos dados sobre recuperação judicial. Em 2022, a Serasa Experian registrou 833 pedidos de recuperação judicial no país.
Em 2025, a empresa registrou 977 processos de recuperação judicial e 2.466 CNPJs envolvidos. Esse número foi considerado recorde para a série de empresas alcançadas pelos processos.
Os dois números não significam a mesma coisa. Um único processo pode envolver várias empresas de um mesmo grupo econômico. Por isso, não é correto comparar diretamente os 833 pedidos de 2022 com os 2.466 CNPJs de 2025 como se fossem a mesma medida.
A própria Serasa relaciona o aumento a um cenário de crédito mais seletivo, juros elevados e demanda desigual entre os setores. Quando o dinheiro fica mais caro e as vendas não acompanham os custos, muitas empresas passam a ter dificuldade para manter o fluxo de caixa.
A carga tributária pode aumentar essa pressão, mas não é a única explicação. Juros, endividamento acumulado, queda nas vendas, problemas de gestão e mudanças no comportamento dos consumidores também podem levar uma empresa a pedir recuperação judicial.
O que esse conjunto de dados revela
Os números mostram um período de forte pressão social, fiscal e empresarial. Cresceram os registros de pessoas em situação de rua, a dívida pública aumentou, o resultado primário piorou em relação a 2022 e muitas empresas buscaram proteção judicial para renegociar suas dívidas.
Isso não significa que todos os problemas tenham uma única causa ou que possam ser explicados apenas pelas decisões do governo federal. Cada indicador tem uma metodologia própria e sofre influência de diferentes fatores.
A conclusão mais equilibrada é que o Brasil chegou a 2026 com desafios importantes: reduzir a vulnerabilidade social, controlar o crescimento da dívida, evitar que a carga tributária pese ainda mais sobre famílias e empresas e criar condições para que o crédito volte a ser acessível.
A avaliação política do governo continuará sendo objeto de debate. Mas, para que esse debate seja sério, é necessário apresentar os números corretamente, explicar o que eles medem e deixar claro onde termina o dado e começa a interpretação.
Fontes relacionadas
[1] MDS — Dados e Ferramentas do Cadastro Único
[2] Agência Brasil — Setor público registra superávit primário de R$ 126 bilhões em 2022
[3] Banco Central — Estatísticas fiscais
[4] Ranking dos Políticos — Aumento de impostos: o que o governo criou e elevou desde 2023
[5] Tesouro Nacional — Carga tributária bruta do governo geral em 2024
[6] Serasa Experian — Pedidos de recuperação judicial em 2022
[7] Serasa Experian — Recuperações judiciais em 2025 e mudança de metodologia









